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O consumo enquanto experiência simbólica

texto: Marcos Beccari

fonte: Formas do Consumo

Desde criança, existia algo (que eu não sabia o quê) que me fascinava em cartazes, livros, histórias em quadrinhos, filmes, etc. Algo sutil e efêmero mas que, de certo, parece ter vida própria. Então decidi estudar Design Gráfico para aprender a fazer aquilo que sempre me chamou atenção. Olhando agora, no entanto, percebo que eu fico mais entusiasmado em entender como aquele algo funciona do que propriamente em fazer aquilo funcionar.

Para tanto, inevitavelmente tive que estudar um pouco sobre consumo. Alguns autores o consideram como sendo um comportamento básico do homem, tal como o pensamento, a imaginação e a produção de cultura. Outros já encaram o consumo como um elemento discursivo, em determinado contexto, relacionado à ideologia e a mecanismos de controle social. Em assuntos como este, então, o máximo que podemos fazer é escolher os autores que nos pareçam mais convincentes e apresentar alguns dos seus argumentos.

Com toda franqueza, aproximo-me mais do primeiro ponto de vista. Considero consumo como sendo a relação entre o homem e aquele algo que sempre me fascinou: símbolos. O campo de estudos do Design (assim como o da Comunicação e o da Arte) costuma entender o símbolo como um elemento de linguagem, isto é, como um conhecimento abstrato veiculado por uma palavra, figura ou outra coisa qualquer. Assim, por exemplo, a palavra “cavalo” é um símbolo referente a uma espécie particular de animal quadrúpede, e a luz vermelha em um semáforo simboliza o imperativo “pare”.

Todavia, há um outro tipo de símbolo, que se aproxima mais de uma experiência. Para o psicólogo Jung [1], toda e qualquer experiência humana está atrelada a um determinado tema universal, mas é vivenciada de modo único e individual. Para ele, um símbolo seria a expressão de um tipo de experiência não passível de ser reduzida a um conceito. Trata-se de uma expressão (imagem, palavra, objeto, etc.) que sinaliza uma experiência aparentemente espontânea e carregada de afeto, enunciando uma espécie de sentido oculto ou desconhecido existente nessa experiência.

Logo, frente a uma experiência simbólica, temos a impressão de que não se pode explicar tal experiência por completo, apesar de a vivenciarmos de maneira real e concreta. A cruz cristã, por exemplo, é um objeto que representa um significado conhecido, mas para algumas pessoas ela também expressa algo desconhecido ou parcialmente conhecido, que não se resume àquela cruz – Deus, amor, redenção, etc. “Um sinal é uma parte do mundo físico do ser, um símbolo é uma parte do mundo humano do significado”[2]. A cruz é somente uma cruz, mas também pode veicular, para alguém, um significado não representável.

Esse poder simbólico, sob a perspectiva junguiana, implica que todo símbolo expressa uma experiência sincronística: um evento que contradiz suas próprias causas, algo que aparentemente vem de outro lugar, quase como uma destinação secreta. Na atuação em Design, por exemplo, muitas vezes a concepção final de um produto ou peça gráfica já não mais corresponde ao esboço inicial. No entanto, geralmente essa concepção final aparenta ser muito mais pertinente ou significativa do que a primeira tentativa, como se fosse uma ideia que sempre existiu, só estava esperando para ser descoberta.

Assumir isto significa aceitar a existência de um determinado sentido oculto e, portanto, de uma experiência simbólica. O símbolo, neste caso, seria aquilo que apareceu na hora certa e no lugar certo, como uma ideia ou um objeto repentinamente oportuno. De modo geral, e emprestando provisoriamente a descrição que Baudrillard [3] atribui ao conceito de destino, podemos dizer que a experiência simbólica tem uma forma esférica: “quanto mais nos afastamos de um ponto, mais nos aproximamos dele”. Ou seja, diante de um símbolo, temos a impressão de que seu significado é inesgotável e, ao mesmo tempo, é cada vez mais compreensível através do símbolo.

Retomando a questão sobre o consumo, sob este viés psicológico, poderíamos encará-lo como sendo a relação entre o homem e o símbolo, conforme adiantamos anteriormente. Mas que tipo de relação? Parece-me algo próximo da sedução. A sedução pressupõe a existência de um outro, de uma troca, de uma relação dual, além da suposição de que um dos lados enuncie ou signifique algo a mais e algo diferente que escapa ao conhecimento atual.

Ou seja, quando seduzimos ou somos seduzidos, há uma estranha atração aparentemente sem explicação – ficamos diante de um conflito (a sedução não pode ser fácil e previsível) e, ao mesmo tempo, de uma espécie de cumplicidade afetiva, como uma conspiração secreta. Acredito que o consumo acontece nesta troca simbólica que nos seduz e nos faz seduzir, sempre mediado pelo símbolo e, portanto, constituído de uma experiência simbólica.

Evidentemente, as ideias aqui expostas formam apenas um esboço que não se pretende definitivo ou irreversível. Em outras palavras: posso estar enganado. Se for o caso, ou sempre que for o caso, gosto de pensar que estes equívocos – antes de serem percebidos enquanto tais – são como “saltos sobre o nada” que me permitem uma liberdade que seria totalmente inexprimível sem este risco. Voltando ao início: acredito que os designers estão num lugar privilegiado e ao mesmo tempo arriscado no âmbito da comunicação e do consumo, como se eles tivessem um algo-a-dizer e que esse algo é exatamente (e necessariamente) o mais difícil de dizer. É sempre um risco. Mas também é aquilo que sempre que fascinou, ou seja, uma experiência simbólica.


REFERÊNCIAS
[1]
JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Trad. Maria Lúcia Pinho. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
[2] CASSIRER, E. An Essay on Man: An Introduction to the Philosophy of Human Culture. New Haven/London: Yale University Press, 1962. p. 32
[3] BAUDRILLARD, J. Senhas. Trad. Maria Helena Kühner. 2. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2007. Marcos Beccari nasceu em São Paulo/SP, formou-se em Design Gráfico pela UFPR e atualmente tem lutado contra o tempo para terminar seu Mestrado em Design na UFPR. Embora tenha experiência profissional nas áreas de Comunicação Visual e Artes Visuais, seu maior interesse está em Filosofia e Estudos do Imaginário. Isso o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o designer como um “articulador simbólico” seguindo a perspectiva de C. G. Jung. Por mais polêmico que possa parecer, ele ainda não encontrou motivos suficientes para ir até o fim em uma disputa ideológica. Ao contrário, prefere se manter em constante mutação, desde o pessimismo existencialista até o otimismo platônico (sendo este último o que predomina). Atualmente, coordena um grupo de estudos sobre Filosofia do Design, além de participar do projeto AntiCast e colaborar com os blogs Design Simples e Universo Humanus.

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Fonte: Bem Legaus






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